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Crítica | The Monster

The Monster (2016)

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The Monster (2016) Crítica

“Eles estão escondidos e observando. Espere e veja. Oh existem monstros para você e para mim.”

Em 2008 o diretor Bryan Bertino definitivamente conquistou seu lugar no gênero ao nos entregar um dos filmes de invasão de residência mais cultuados dos últimos anos: Os Estranhos. A história de um casal atormentado por um trio de mascarados, além de ser baseada em fatos reais – o que certamente tem um apelo muito maior para o público – tem como grande trunfo a atmosfera quase sobrenatural criada por Bertino. Depois de um longo hiato, o cineasta reapareceu em 2014 trazendo o found footage Perseguidos Pela Morte (Mockingbird), que apesar de ter uma premissa muito interessante, não fez muitos fãs por aqui e passou praticamente despercebido, sendo exibido vez ou outra na TV à cabo.

Agora Bertino está de volta, deixando um pouco de lado seus stalkers e apostando no filme de criatura The Monster, que conta a história de uma mãe alcoólatra e negligente, Kathy, vivida por Zoe Kazan, e sua filha pré-adolescente Lizzy. As duas vivem juntas desde que Roy (Scott Speedman), o pai de Lizzy, saiu de casa e por conta da condição de sua mãe a menina foi obrigada a amadurecer muito cedo. Logo na primeira cena fica estabelecida a dinâmica do relacionamento entre as duas. Lizzy arruma a casa e, assim como uma mãe tentando acordar seu filho para escola, se vê obrigada a tirar Kathy da cama, dando uma clara demonstração de como os valores estão invertidos nessa relação.

Mas nada de escola para Kathy. Lizzy está indo morar com seu pai e as duas precisam pegar logo a estrada para chegarem até Roy. Mas infelizmente, por conta do atraso, mãe e filha são obrigadas a viajar durante a noite e debaixo de uma chuva torrencial. Enquanto passam por um trecho da estrada que corta a floresta, Kathy perde o controle da direção e acaba acertando um lobo que cruzava a estrada, matando o animal e deixando seu corpo estendido no meio da pista. Machucadas, com o carro avariado e impossibilitadas de seguir viagem, as duas decidem ficar dentro do carro enquanto esperam pelo socorro.

O reboque chega e assim que para um pouco mais a frente, Lizzy percebe que o corpo do lobo desapareceu. Enquanto o mecânico Jesse (Aaron Douglas) se prepara para guinchar o carro de Kathy, ele nota que o eixo está quebrado e que há um vazamento de óleo que precisa ser reparado antes que o carro seja levantado. Jesse então se põe a trabalhar embaixo do carro enquanto as duas aguardam dentro do carro. Porém não demora muito para que elas percebam que o mecânico também sumiu e, pior ainda, existe algo a espreita na beira da estrada.

The Monster tem uma carga emocional muito forte e desde o começo fica bem claro que mãe e filha têm um relacionamento muito desgastado. Bertino faz uso de flashbacks em sua narrativa para mostrar ao espectador como esse relacionamento chegou a um ponto, no qual a pobre Lizzy sinta tanta vergonha de sua mãe que insiste para que ela não compareça a uma de suas apresentações na escola.

Centrando-se em um relacionamento tão complexo, The Monster se apoia completamente na sua dupla de atrizes e a dinâmica entre Zoe Kazan e Ella Ballentine dá toda credibilidade à trama. Depois de ver Zoe Kazan como Kathy é impossível imaginar outra pessoa no papel. O mais incrível nisso tudo é que a atriz, frequentemente vista em comédias independentes, foi convocada às pressas para substituir Elizabeth Moss, que abandonou o projeto duas semanas antes das filmagens começarem. Por sua vez Ella Ballentine é extremamente convincente em seu papel e apesar de toda a responsabilidade que a menina é obrigada a carregar – chegando inclusive a impor algumas regras, como por exemplo não permitir que Kathy fume dentro do carro – ainda é possível ver nela a criança frágil que ela ainda é. E caso você esteja se perguntando sobre Scott Speedman, o ator faz apenas uma ponta e se tiver mais de 15 segundos de cena, já é muito, mas cumpre seu papel.

Porém o ponto mais importante aqui é que conforme os eventos em de The Monster se desenrolam, a história nos lembra que muitas vezes a maioria das pessoas quer fazer o bem, mas, para isso, antes elas tem que lidar com seus próprios monstros e a sua capacidade de domá-los é um fator decisivo na hora de fazer o que é certo. E talvez seja para falar sobre nossos monstros internos que Bertino abre seu filme com a rima infantil em destaque acima, que diz que existem monstros para você e para mim. Kathy tem seu próprio monstro que é o alcoolismo e isso, de certa forma, a transforma em um monstro tão grande para Lizzy, que faz com que a menina passe a odiar a própria mãe e assim, acabe desenvolvendo seu próprio monstro.

A criatura do filme apenas representa um monstro maior que as obrigará a domar as suas feras para que saiam vivas dali e, por fim, se reconectem. A besta foi criada pelo super competente Alec Gillis, que recentemente nos trouxe o seu próprio filme homenagem Harbinger Down e como de costume utiliza apenas efeitos práticos. Porém a criatura não aparece muito e, embora isso vá decepcionar alguns, é preciso ressaltar que quando ela realmente aparece não traz nenhum atrativo digno de nota. Até porque não é possível vê-la claramente por conta do ambiente escuro, que aqui, assim como a chuva, é muito bem utilizado para limitar a visibilidade e deixar o filme ainda mais angustiante.

A maior parte dos problemas de The Monster acontece no terceiro ato quando a trama assume uma postura mais condizente com um filme de criatura e a produção não apenas sofre com várias falhas de continuidade, como também nos empurra uma sequência de situações estúpidas que claramente foram colocadas ali apenas para que o filme possa atingir seus objetivos e seguir rumo à conclusão.

The Monster não é perfeito e a carga emocional pode desapontar aqueles que esperam por um filme de criatura mais tradicional. Ainda que mantenha alguns conceitos do gênero e crie uma atmosfera de tensão eficiente, a proposta de Bryan Bertino de explorar o embate de personalidades e de expor os monstros internos das personagens muito bem interpretadas por Zoe Kazan e Elle Ballentine, funciona e leva o espectador até o final. Definitivamente um dos melhores de 2016.

8
Bom

'The Monster' não é um perfeito, mas ainda assim é um dos melhores de 2016.

  • Nota Geral 8