Crítica | O Quarto dos Esquecidos

The Disappointments Room (2016)

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O Quarto dos Esquecidos (The Disappointments Room) | Crítica

Sejam bem-vindos ao “quartinho da desilusão”

A última vez que me lembro de ter conscientemente assistido alguma coisa escrita por Wentworth Miller foi a suposta homenagem ao trabalho de Alfred Hitchcock, Segredos de Sangue (Stoker) e apesar do suspense de fato trazer várias referências às obras do mestre, a trama absurdamente genérica não impressionou muito. Não fosse o excelente trabalho do sul-coreano Park Chan-Wook na direção – na época merecidamente em alta por causa de sua Trilogia da Vingança –, talvez Segredos de Sangue não fosse sequer merecedor de destaque suficiente para um lançamento nos cinemas lá fora. Muito menos por aqui.

Em O Quarto dos Esquecidos (The Disappointments Room), Miller vira seus olhos para o sobrenatural e aposta no terror psicológico para contar a história de Dana Barrow (Kate Beckinsale), que assim como em 90% dos filmes com uma casa assombrada, é uma mulher em busca de um novo começo em um novo lar, para onde se muda acompanhada de seu marido David (Mel Raido) e de seu filho Lucas (Duncan Joiner). Logo na primeira visita a cidade, depois de uma situação desconfortável claramente implantada para nos informar que nossa heroína é uma arquiteta, a família fica sabendo que a residência para a qual estão se mudando pertencera ao Juiz Blacker e a sua esposa e que há muito tempo não tinha novos moradores.

Com a casa precisando de uma boa reforma, a idéia é que o trabalho na recuperação do lugar possa ajudar Dana a retomar sua carreira, claramente interrompida por um evento que a abalou profundamente. Para ajudá-la no serviço chega Ben (Lucas Till), um jovem galanteador que não perde tempo e logo tenta conquistar Dana de uma forma nada profissional. Porém existe algo além do jovem a incomodando em sua nova casa e não demora muito para que ela comece a ouvir sons estranhos que a levam a descobrir um quarto secreto, literalmente conhecido como “o quarto das decepções”. Um lugar que esconde um segredo que nunca deveria ter sido destrancado.

O conceito do quarto embora seja interessante, apenas serve para nos lembrar que o maior problema de uma idéia reaproveitada é que, invariavelmente, ela já foi utilizada de uma forma muito melhor antes. E no quesito quartinho medonho no sótão, até hoje não se viu nada melhor no gênero do que o clássico A Troca (The Changeling, 1980). As comparações são inevitáveis e isso, de certa forma, acaba aumentando e muito nível de exigência com O Quarto dos Esquecidos, que, com alguns poucos ajustes no roteiro, poderia muito bem ser um remake do filme de 1980. Porém, a trama de uma forma positiva, consegue se afastar do filme de Peter Medak, mas, talvez por conta da necessidade de buscar sua própria identidade, não consegue causar um décimo do impacto.

Apesar de D.J Caruso ser um diretor competente, não consegue trazer para a tela aquele algo a mais que Park trouxe com tanta eficácia ao roteiro previsível de Miller em Segredos de Sangue. O Quarto dos Esquecidos tem um ritmo lento, especialmente nos dois primeiros terços onde a trama literalmente se arrasta, enquanto força o espectador à reviver várias situações já utilizadas à exaustão anteriormente e que jogam o filme no mais comum dos lugares. Tudo isso salpicado por erros gritantes de continuidade e de tomadas sem nenhum propósito aparente.

Os tons de cinza da cinematografia refletem o clima mórbido e a atmosfera não só da casa, mas como a de sua personagem principal, porém é impossível deixar de notar a preguiça no figurino, que além de uma Dana que não se despenteia nunca, se limitou a mostrar sempre a personagem trajando camisa branca e casaco cinza, como se fosse um símbolo do manto de tristeza que hoje cobre uma mulher em busca de paz.

Kate Beckinsale já vez bons trabalhos em sua carreira, mas aqui entrega uma atuação inexpressiva que apenas ressalta os inúmeros problemas com a sua personagem, incluindo a necessidade de mostrar Dana como uma mulher forte. O traço seria muito bem-vindo se não fosse feito de forma tão forçada e/ou, pelo menos, apresentasse um senso de propósito com alguma validade para a trama. Porém apenas cria uma série de ambiguidades não só na personalidade da mulher, mas também na de seu marido, David. Por outro lado também surpreende o fato de uma arquiteta não saber que algumas residências antigas podem conter quartos secretos, reservados para os mais devidos fins, dando a entender que, tirando alguns requisitos a serem preenchidos, a personagem não recebeu muita atenção durante a sua concepção.

A cada momento fica mais evidente que a mulher e sua família foram recentemente marcados por uma tragédia e a tentativa de nos fazer crer que o que de fato aconteceu é uma grande revelação, acaba sendo um dos maiores detratores de O Quarto dos Esquecidos. Talvez se o conceito fosse explorado mais cedo, para dar mais profundidade à Dana poderíamos ter alguma coisa que nos identificasse mais profundamente com a personagem. Entretanto a informação chega tão tarde que se torna praticamente irrelevante e não surte efeito algum a não ser nos fazer pensar na relação do quarto com a sua própria tragédia pessoal da mulher.

Com uma trama genérica e sem impacto nenhum, O Quarto dos Esquecidos é uma verdadeira decepção. A trama cai facilmente em um lugar comum e aposta em uma revelação que chega tão atrasada que perde a chance de criar um elo maior entre o público e a sua personagem principal. No final das contas, apenas nos abre as portas daquele lugar onde nossos sonhos de assistir um bom filme de terror terminam: o quartinho da desilusão.

4
Desaponta

Com uma trama genérica e sem impacto nenhum, O Quarto dos Esquecidos é uma verdadeira decepção.

  • Nota Geral 4

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