Crítica | Kong: A Ilha da Caveira

Kong: Skull Island (2017)

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Kong: A Ilha da Caveira (Kong: Skull Island, 2017) trailer #2

Houve uma época, há muito tempo atrás, onde filmes de monstros gigantes eram capazes de aterrorizar platéias pelo mundo afora e consequentemente era muito fácil identificá-los como filmes de terror. Mas, infelizmente, os tempos mudaram. O público mudou. Ficou cada vez mais acostumado com mortes, violência e com o gore e talvez por pura comodidade, fanfarronice ou (me perdoem a franqueza) ignorância, foi alterando por conta própria os conceitos que definem o gênero e a cada dia se tornam mais comuns comentários alegando que filmes como Godzilla, King Kong e Jurassic Park são puramente filmes de aventura. Talvez tenha sido nisso que os estúdios tenham transformado estas histórias e, sendo bem franco, de fato elas são. Mas elas vão muito além disso. Hoje são um verdadeiro amálgama de gêneros.

Mesmo sendo taxadas e vendidas como aventuras, para mim é muito fácil identificar o terror em produções desse tipo. Nessas horas eu simplesmente me pergunto: “Como eu me sentiria perdido em uma ilha desconhecida, diante de um gorila do tamanho de um prédio de 20 andares?” Creio que não seria algo como: “Nossa! Que aventura!” E para ter certeza disso, basta ver o que acontece em Kong: A Ilha Da Caveira.

O ano é 1973 e o filme se passa durante o final da Guerra do Vietnã, quando Bill Randa (John Goodman) e seu assistente e geólogo Houston Brooks (Corey Hawkins) vão atrás de um senador interpretado pelo sempre excelente Richard Jenkins, para angariar os recursos necessários e montar uma expedição com a suposta missão de mapear uma ilha tão misteriosa, que Randa a equipara ao Triângulo das Bermudas.

Para escoltá-lo até lá um pelotão do exército ávido por ação é destacado, sob a liderança do Coronel Packard (Samuel L. Jackson) e do Major Chapman (Toby Kebbell). Mas mais do que isso, Randa precisa de alguém para “guiá-lo” pela ilha e contrata como rastreador o ex-espião do exército britânico, James Conrad, interpretado por Tom Hiddleston. À equipe, ainda se juntam a repórter fotográfica e pacifista Mason Weaver, vivida por Brie Larsen – cujo os instintos indicam que há algo por trás dessa história toda – e a bióloga San Lin (Jing Tian).

O grupo parte de um porta-aviões rumo à ilha, envolta por uma tempestade aparentemente inexpugnável e nesse momento todas as referências do diretor Jordan Vogt-Roberts vêm à tona. A influência de Apocalypse Now em Kong: A Ilha Da Caveira é notória. As cenas envolvendo os helicópteros são um espetáculo hipnotizante, ainda mais valorizado pelo visual incrível do cenário, pela cinematografia que reflete muito bem o clima da época e especialmente pela trilha sonora que nos apresenta tudo isso ao som de Black Sabbath e Creedence Clearwater Revival.

Para mapear o local a equipe lança uma enxurrada de cargas sísmicas sobre o terreno, detonando uma série de explosões por todo o território da ilha e não demora muito para que isso chame a atenção de seu morador mais ilustre. Kong aparece em toda a sua glória e não está nada feliz com estes novos visitantes.  Em uma sequência de ação épica, que mostra claramente que a Legendary realmente aprendeu com os erros de Godzilla, o monstro abate as aeronaves uma a uma, eliminando boa parte dos soldados.

Agora com os membros restantes da equipe espalhados pela ilha, Packard está determinado a não deixar nenhum soldado para trás e, principalmente, a vingar a morte dos seus homens. Eles precisam se reagrupar para chegar ao ponto de encontro antes que sejam devorados pelas criaturas mortais que vivem ali. No caminho encontram Hank Marlow (John C. Reilly), um piloto preso na ilha desde a Segunda Guerra Mundial, que rapidamente os põe a par de como as coisas funcionam na ilha.

Logo na sequência de abertura fica bem claro a direção em que a Warner e a Lionsgate pretendem nos levar com Kong: A Ilha Da Caveira e seu novo MonsterVerse envolvendo Godzilla. A apresentação emoldurada pelo tema principal composto por Henry Jackman transmite a sensação de que estamos prestes a ver um filme da Marvel. E de certa forma vamos.

O nosso bom e velho Kong aqui é uma versão bem diferente das versões do filme de John Guillermin de 1976 e, principalmente, da versão de 2005 de Peter Jackson. Kong é o grande herói da história e em todos os momentos ele é tratado como tal, chegando inclusive a ser visto como um Deus. Um defensor da humanidade e dos males que vem do subterrâneo. O gorilão é retratado de uma forma mais humana, claramente mais inteligente e sua postura lembra muito mais a de um chimpanzé, do que o gorila do filme de Jackson.

Mas enquanto isso pode ser considerado um detrator de Kong: A Ilha Da Caveira, por outro lado, aproxima o novo Kong da versão clássica de 1933, de Merian C. Cooper e de Ernest B. Schoedsack. E é através desses pequenos detalhes que o filme de Jordan Vogt-Roberts vai fazendo as suas homenagens às produções anteriores, sem perder a oportunidade de transformar este novo Kong em um oponente capaz de fazer frente à Godzilla em Godzilla Vs. Kong. Kong é mais um titã do que um monstro e a forma como isso será encarado vai depender do gosto de cada um. Porém é preciso ressaltar que esta nova versão foi concebida já pensando no encontro entre as duas feras, já programado para 2020, e ao longo de toda a trama algumas dicas são jogadas ao espectador a fim de preparar o terreno para esse confronto.

O elenco é um dos pontos fortes de Kong: A Ilha Da Caveira, com Samuel L. Jackson no papel de Packard, que desenvolve uma obsessão por Kong no melhor estilo Capitão Ahab de Moby Dick e impulsiona toda a trama. Por outro lado Tom Hiddleston e Brie Larsen, apesar de serem tratados como protagonistas, servem apenas como contrapeso para a fixação e o militarismo de Packard. Com isso John C. Reilly, que interpreta o sobrevivente Hank Marlow, acaba se tornando um dos principais destaques e literalmente rouba a cena, mesmo sendo o principal responsável pelos alívios cômicos do filme.

Mas Kong: A Ilha Da Caveira não é perfeito e logo fica evidente que, salvo alguns detalhes, o filme é apenas uma releitura do filme de 2005 e que a tal reinvenção não é tão reinvenção assim. Apenas uma trama ajustada para encaixar uma história já conhecida dentro do universo de Godzilla. O tom também pode ser considerado um problema. Embora recorra frequentemente à comédia para aliviar a tensão e deixar o espectador respirar, alguns momentos sérios e dramáticos são rapidamente transformados em piada, dando a impressão que o filme foi feito para um público de idiotas.

Como era de se esperar em uma produção tão fantasiosa, Kong: A Ilha Da Caveira é cheio de momentos absurdos. Isso não deveria ser um problema, pois os exageros fazem parte do show, mas a execução de alguns deles destoa de todo o resto, parecendo inclusive que foram extraídos de outro filme. Como por exemplo uma cena em que Tom Hiddleston usa uma espada para abrir caminho através de um bando de uma espécie de pássaros em meio à um gás verde. A estética é perfeita e ela cumpre seu papel, mas a sensação que fica é a de que fora colocada ali apenas para nos relembrar de que este é mesmo um filme de super heróis.

Kong: A Ilha Da Caveira é uma grande fusão de gêneros e é justo dizer que como entretenimento é um filme completo. Consegue ser divertido e tenso ao mesmo tempo. Tem ação, guerra, drama, comédia e terror. Sim! O terror também está presente em Kong: A Ilha Da Caveira. Pelo menos no sentido do gênero literário, já que o filme nos mantém com sensação de que algo de ruim está prestes a acontecer a todo momento e o enredo nos coloca em tantas situações escabrosas e violentas que é praticamente impossível não temer pela vida dos personagens. E isso, meus amigos. Isso é terror.

P.s.: Não se esqueça de ficar para a cena pós-créditos.Vai exigir paciência, mas vale a pena.

8
Diverte

"Kong: A Ilha Da Caveira" é uma grande fusão de gêneros e como entretenimento é um filme completo. Diversão do início ao fim.

  • Nota Geral 8

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