O melhor dos gêneros de horror, suspense, ficção e fantasia

Crítica | Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo

I Don't Feel at Home in This World Anymore (2017)

0 80

Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo (I Don't Feel at Home in This World Anymore, 2017) Crítica

O que você quer? – Que as pessoas deixem de ser idiotas!

Frequentemente visto nos filmes de Jeremy Saulnier o ator Macon Blair faz a sua estreia na direção com Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo (I Don’t Feel at Home in This World Anymore), um filme que simplesmente apareceu do nada como uma produção surpresa da Netflix no final de fevereiro. A história aparentemente nos traz um thriller de vingança nada convencional e dotado de um humor negro que imediatamente chamou a nossa atenção desde que vimos o primeiro trailer. Mas logo é possível perceber que é justamente o contrário.

Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo conta a história de Ruth (Melanie Lynskey) uma enfermeira retraída que leva uma vida pacata e invisível para uma sociedade que claramente liga cada vez menos para a noção de coletividade. Ruth é uma personagem muito fácil de se identificar e sua revolta é ainda mais fácil de compreender – especialmente se você é for uma pessoa que zela pela a educação. Em suas próprias palavras, tudo o que ela deseja é “que as pessoas deixem de ser idiotas” e Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo expõe toda uma sorte de comportamentos repreensíveis que justificam a sua indignação: Um desconhecido vivido pelo próprio Macon Blair, que estraga a revelação principal do romance que Ruth está lendo; uma senhora que nem mesmo à beira da morte consegue se privar de comentários racistas; e seu vizinho Tony (Elijah Wood), que diariamente permite que seu cachorro faça cocô em seu gramado.

Porém um dia, ao voltar para casa, ela descobre que sua casa foi invadida e seu notebook e a prataria de sua avó foram levados. Vendo que o respeito pela propriedade alheia não tem valor alguma para um determinado grupo de pessoas, Ruth chama a polícia na esperança de reaver seus pertences. Infelizmente, para a indignação completa de Ruth, para as autoridades o seu problema é pequeno demais perto das demais ocorrências e o conformismo apático do Detetive William (Gary Anthony Williams) se torna inaceitável ao tratar Ruth como como a principal responsável pelo roubo, já que a moça não tomou as medidas de segurança para evitar que isso acontecesse.

Desapontada, Ruth sê vê obrigada a tomar as rédeas da situação iniciando a sua própria investigação ao lado de Tony. Os dois são levados diretamente à um trio de assaltantes perigosos e quando se dão conta, percebem que foram longe demais.

Ao contrário do esperado, Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo se desenvolve muito mais como um romance independente do que como um thriller e tem um ritmo lento que remete muito aos trabalhos de Jeremy Saulnier. Em especial Blue Ruin. Porém Blair é capaz de explorar todo o arco de Ruth para instigar a curiosidade do espectador e mantê-lo interessado até o final, a fim de saber onde essa história vai dar. A personagem não poderia ser interpretada por outra pessoa que não fosse Melanie Lynskey e a atriz representa como ninguém a transição da personagem conforme uma Ruth tola e passiva vai perdendo a esperança na humanidade e se vê obrigada a sair da sua zona de conforto. Porém é impossível não notar que há um contraponto na relação entre a intolerância idiossincrática da personagem e o que é de fato intolerável nesse mundo. Ruth não só passa a confrontar tudo aquilo que a incomoda na sociedade, mas também lidar com a vida de forma mais enérgica e a vê-la com outros olhos.

Mas é exatamente graças um desses momentos de revolta que Ruth tem a oportunidade de conhecer Tony. Inicialmente um vizinho incômodo, o rapaz protagoniza uma cena que nos deixa bem claro que as pessoas, por mais que ajam como idiotas aos olhos dos demais, são incapazes de reconhecer isso até mesmo quando fezes lhes são atiradas. Ninguém nunca se acha o idiota (especialmente nas redes sociais) e, mesmo depois de várias advertências, são raros os que tem a capacidade de reconhecer isso como Tony, que a seguir se mostra um cidadão preocupado e um aliado fiel, com mais afinidades com Ruth do que ela mesma poderia imaginar.

Particularmente eu nunca achei Elijah Wood um grande ator, porém aqui ele é convincente o suficiente e fica responsável pelos principais momentos cômicos de Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo. Especialmente explícito quando Tony e Ruth decidem tomar seus bens de volta. Entretanto uma das grandes surpresas é Jane Levy que interpreta uma vilã de poucas palavras e de olhar penetrante que acaba se tornando a responsável pelo verdadeiro banho de sangue que nos aguarda. Porém sua aparência e seu comportamento no filme a me lembraram muito a sua personagem em A Morte do Demônio, Mia.

Não. Você não leu errado. Há sim um banho de sangue em Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo. Ou quase isso. E para o fã do horror o gore será satisfatório. Especialmente dentro da realidade do filme. Porém o ápice da violência ressalta dois pontos à respeito da trama que são dignos de nota, sendo um positivo e outro negativo.

Pelo lado positivo o roteiro é um verdadeiro exemplo do “preparar e recompensar” exposto por Drew Goddard em O Segredo da Cabana. Apesar de toda a lentidão, a trama é salpicada de momentos de violência que chegam a surpreender em algumas partes e ajudam a quebrar o ritmo moroso propositadamente imposto pela narrativa blazê de Blair e, pouco à pouco, vão impulsionando a trama adiante até o terceiro ato.

Porém, pelo lado negativo, Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo faz uma transição muito brusca e em seu terço final passa do comédia romântica independente para o thriller de invasão e sequestro muito rápido, dando a impressão de que simplesmente mudamos de canal e estamos vendo outra história com os mesmos personagens. A partir desse ponto, a insistência em manter o tom cômico empregado nas cenas de violência cria momentos que na verdade soam mais idiotas do que engraçados e o tom antes homogêneo, fica completamente inconstante.

É justo dizer que Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo é uma ótima estreia para Macon Blair na direção. O ritmo lento certamente fará o espectador acreditar que o filme tem mais do que os seus 93 minutos de exibição, mas de todo não chega a ser um filme cansativo. A trama apresenta personagens muito fáceis de se relacionar e os poucos momentos de violência ao longo da trama vão aos lentamente preparando terreno para o grand finale, que, infelizmente, fica um pouco prejudicado pela mudança de tom brusca demais no terceiro ato. Mas Vale a pena conferir.

7
Interessante

Vendido como um thriller cômico, o filme na verdade é mais uma comédia de humor negro de ritmo lento. Mas não é cansativo prende a atenção e recompensa o espectador com picos de violência.

  • Nota Geral 7