Crítica | Don’t Knock Twice

Don't Knock Twice (2017)

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Funciona! Pena que não até o final.

O diretor independente Carradog James deixou uma boa impressão em 2014 com a ficção científica Soldado do Futuro (The Machine) e agora envereda pelos reinos do horror com Don’t Knock Twice, um filme de baixo orçamento dito baseado em uma lenda urbana inglesa envolvendo uma bruxa demoníaca.

Anunciado em 2014 e há quase três anos em produção, o filme traz no elenco Katee Sackhoff no papel de Jess, uma artista plástica de relativo sucesso que anos atrás se viu obrigada a abrir mão da guarda de sua filha, Chloe, por causa de uma severa dependência química. Com a vida estabilizada ao lado de seu marido Ben (Richard Mylan) e longe do vício, Jess agora tenta reaver a custódia da menina. Porém as coisas não saem como esperado e Chloe, vivida por Lucy Boynton, não aceita voltar para a mãe, preferindo a companhia de seu namorado Danny.

Uma bela noite Danny e Chloe decidem desafiar uma lenda urbana local, ao bater duas vezes na porta da antiga casa de Mary Aminov, uma mulher acusada de bruxaria que tirara a própria vida depois de ter sido responsabilizada pela morte de um menino.

Pouco tempo depois Danny desaparece. Assustada e sem ter a quem recorrer, Chloe aparece no meio da noite na casa de sua genitora em busca de ajuda. A garota explica o motivo de sua “volta para casa” e Jess inicialmente não acredita na sua história. Mas diante da chance de reconquistar o amor de sua filha, a artista decide abraçar a oportunidade a todo custo.

Logo entra em cena o Detetive Boardman (Nick Moran), um antigo conhecido de Chloe, que anos atrás esteve diretamente envolvido no caso de Mary Aminov e que agora deseja saber o paradeiro de Danny. Porém ele também não crê na lenda urbana e descarta essa hipótese.

Antes que Jess perceba, ela e Chloe se veem vítimas de pesadelos terríveis e de eventos sobrenaturais inexplicáveis que a levam a crer que talvez essa lenda seja mais real do que ela tinha imaginado.

Um dos maiores pontos positivos de Don’t Knock Twice é que o filme não demora a acontecer. Com apenas alguns minutos já vemos as primeiras manifestações e, obviamente, elas são o ponto de ligação entre Jess e Chloe. Isso evidentemente tem seu lado positivo, pois os personagens principais são estabelecidos rapidamente e de forma muito eficaz. Além disso não temos a tradicional “amostra grátis”, aquela morte inicial cuja única utilidade é nos apresentar a ameaça a ser enfrentada. Aqui isso é feito de uma forma muito mais inteligente e relevante para a trama no geral.

Por outro lado, a criatura também aparece cedo demais e, embora isso tenha a sua função dentro do enredo, à partir do momento em que a vemos logo no começo, todas as suas demais aparições perdem completamente o impacto. A entidade é vivida por Javier Botet, que também fez a mamãe sobrenatural de Mama e, além de toda aquela mesma linguagem corporal, até os sons emitidos lembram muito a criatura do filme de Andrés Muschietti, deixando a entidade ainda menos ameaçadora.

Independentemente disso a trama segue bem envolvente enquanto se desenvolve ao redor do relacionamento entre a mãe e a filha, conforme as duas vão acertando seus ponteiros e tentando conquistar a confiança uma da outra. Enquanto Jess tenta provar que se arrepende e realmente ama Chloe, esta precisa fazer a mãe acreditar que há algo realmente atrás dela. Neste quesito, tanto Katee Sackhoff quanto Lucy Boynton estão ótimas e a interação entre as duas é perfeita. Porém é uma pena que, no caso de Boynton, a atriz seja um pouco prejudicada pelo roteiro, já que várias vezes tudo o que cabia à personagem fazer era abaixar a cabeça e sair de cena – além de um momento ou outro bem ridículos

Como era de se esperar, Don’t Knock Twice ainda apela para clichés bem comuns ao gênero e faz uso de alguns jump scares, mas em contrapartida faz ótimo uso da casa como cenário e de planos sequências que nos entregam situações bem assustadoras, prendem a atenção e fazem o filme funcionar. Por outro lado são notórias as influências de Carradog James. Em especial por elementos facilmente reconhecíveis dos filmes de James Wan, como a construção de alguns jump scares, só para citar um exemplo.

A iluminação também é um diferencial e cumpre um papel fundamental na composição de uma atmosfera lúgrube e sinistra, explorando contrastes que dão um toque noir ao filme e, de certa forma, refletem o estado de espírito das protagonistas. Um ponto negativo aqui são algumas cenas à noite que ficaram escuras demais e para os interessados em conferir este aqui a recomendação é ver de noite ou em um ambiente bem escuro.

Mas passada a primeira hora o filme entra em uma espiral non sense, que joga toda a coerência pelo ralo. Uma série de eventos desconexos começa a tomar conta da trama deixando o espectador cheio de perguntas sobre o que está acontecendo em cena. De certa forma isso ajuda na manutenção do suspense e não a motivo para alardes, pois tudo ficará claro para os que prestarem a devida atenção. Mas é impossível deixar de notar como toda a fluidez da narrativa foi sacrificada para impedir que o público percebesse o que está acontecendo antes do esperado. Portanto não se assuste se de repente você sentir a necessidade de voltar um pouco o filme para ver se perdeu alguma coisa, ou até assisti o filme novamente, porque essa é a sensação que fica.

Com pouco mais de uma hora e meia de duração, é justo dizer que Don’t Knock Twice funciona por uma hora. Carradog James mostra que tem talento e consegue criar uma atmosfera sombria e momentos realmente assustadores, que ficam ainda mais convincentes graças ao bom elenco. Mas infelizmente o conjunto da obra é prejudicado por uma trama complicada, que tenta tanto esconder seu final, que acaba nos entregando um terceiro ato confuso e corrido. Ainda assim vale a pena a ver, se você estiver disposto à prestar atenção.

5.8
Vale a Pena

A princípio funciona com sua atmosfera sombria e situações assustadoras, mas é prejudicado por um final corrido e embolado.

  • Nota Geral 5.8

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